– ainda lembrando o Dia Internacional da Mulher (08.03) –

Dinacy Corrêa

E o mísero sofria; porque era escravo e a escravidão não lhe embrutecera a alma, porque os sentimentos generosos, que Deus lhe implantara no coração, permaneciam intactos e puros como sua alma. Era infeliz; mas era virtuoso; e por isso seu coração estremeceu-se na presença da dolorosa cena, que se lhe ofereceu à vista. (Maria Firmina dos Reis.Úrsula,1859)

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Nascimento Morais Filho se ufana de ter sido o “descobridor” de Maria Firmina dos Reis (1825-1917). Ele diz que descobriu a romancista, por acaso, no ano de 1973, época em que procurava nos jornais antigos da Biblioteca Pública Benedito Leite textos de autores maranhenses sobre o ciclo natalino (Natal, Ano Novo e Reis). Ficou impressionado ao encontrar informações sobre uma mulher que no período da escravidão escrevia poesias. Depois, encontrou informações sobre o romance Úrsula, publicado em 1859 cuja temática é a sociedade brasileira da época. […]. (Suplemento Cultural e Literário JP-Guesa Errante. Ano III, ed. 100– 28.11.2008).

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Somente a partir da edição fac-similar preparada por Horácio de Almeida e vinda a público em 1975, Úrsula passou ao conhecimento dos estudiosos. Neste ano, sai também o volume Maria Firmina, fragmentos de uma vida, de Nascimento Morais Filho, e Josué Montello, conterrâneo da autora, dedica-lhe artigo no Jornal do Brasil, publicado no ano seguinte em espanhol na Revista de Cultura Brasileña. O prefácio de Charles Martin à terceira edição (1988), o artigo de Luiza Lobo (1993), e o estudo assinado por Zahidé Muzart (2000) complementam a escassa recepção crítica obtida pelo livro. E mesmo um intelectual afro-descendente como Oswaldo de Camargo, em sua coletânea O negro escrito (1987), de incontestável relevância para o resgate de escritores afro-brasileiros do passado e do presente, passa ao largo da obra de Maria Firmina dos Reis. (Eduardo de Assis Duarte)

Historiadores da Literatura Brasileira têm considerado Tereza Margarida da Silva e Orta (mulher admirável, à frente do seu tempo, vida de romance) como a primeira romancista brasileira. Entretanto, embora tenha nascido no Brasil (SP-1711), essa escritora foi levada pela família (pai português), para Lisboa (1716), aos cinco anos. Na pátria de Camões, escreveu (1752), as “Máximas de Virtude e Formosura” – a partir das quais os príncipes de Tebas Diófanes, Climeia e Hemirena venceram as adversidades da vida – mais tarde intitulado de “Aventuras de Diófanes”, que poderia ser considerado o primeiro romance brasileiro, caso a autora tivesse vivido/convivido no país verdeamarelo. Em Portugal, também se casou (contra a vontade do pai) com o português Pedro Jansen Prat (de ascendência alemã, com quem teve 12 filhos) e, por ordem do Marquês de Pombal (1770), esteve presa, na torre, por 07 anos, vindo a falecer (1793) aos 82, sem nunca mais ter voltado à terra natal. Ressalte-se que, autoridades da nossa literatura, como Sílvio Romero, José Veríssimo, Afrânio Coutinho, Alceu Amoroso lima, Nelson Wernek Sodré, Antônio Cândido, Alfredo Bosi, Massaud Moisés, José Guilherme Merquior… não relacionam Tereza Margarida na produção literária brasileira. Assim, estamos com os que acham (Algemira de Macedo Mendes-Uespi, Eduardo de Assis Duarte-UFMG, dentre outros) que se pode considerar, como nossa pioneira no gênero, a maranhense Maria Firmina dos Reis – provavelmente, a primeira mulher brasileira a aventurar-se pelos domínios da ficção literária. (Deusa Maria Costa Leite)

escultura de Maria Firmina dos Reis -  do escultor maranhense Flory Gama

busto de Maria Firmina dos Reis  do escultor maranhense Flory Gama (in: vimarense.zip.net/arch2011-02.12011-20.28.html)

Ao escrever Úrsula, Maria Firmina assinou como “Uma Maranhense” –  pseudônimo que se justifica nas limitações, nos preconceitos a que as mulheres eram submetidas e ainda no tratamento absolutamente inovador que a autora dá ao tema da escravidão no contexto do patriarcado brasileiro. A escritora que permaneceu no silêncio, no esquecimento do anonimato por muito tempo, admite, no prólogo da sua obra, saber que “pouco vale esse romance, porque escrito por uma mulher e mulher brasileira, de educação acanhada e sem o trato e a conversação dos homens ilustrados”. Essas palavras revelam a condição social de quem não pôde estudar na Europa para ter uma educação mais apurada, assim classificando o seu livro de “mesquinho e humilde”, mas desafiando: “ainda assim o dou a lume”. (Luisa Caroline Campos Santos).

No romance Úrsula, desde o começo, a voz enunciadora coloca-se do lado daqueles que almejam um Brasil liberto das desigualdades. Destaque-se, portanto, a posição corajosa de Maria Firmina dos Reis ao denunciar a ilegitimidade e violência da escravidão, justamente aqui no Maranhão, província considerada fortemente escravista. O fato de o vilão da história ser caracterizado como dos mais cruéis dos senhores, não quer dizer que a escravidão fosse legítima para os escravos pertencentes aos “bons senhores”. Trata-se como na perspicaz observação de Assis (2004), de uma obra marcada pelo que se pode chamar, em nossos dias, de “sentimento de brasilidade” […]. A instigante novidade do texto firminiano reside na preocupação com a história e as raízes negras, bem como na referência constante à África; assim, o papel atribuído aos cativos, na trama, revelar-se-á fundamental. (Priscila da Conceição Viegas).

Nunca será demais exaltar a figura de Maria Firmina dos Reis no âmbito da educação, da cultura e das letras. A produção significativa que legou a nossa literatura local e nacional é argumento de autoridade a atestar essa inferência.  Produção, aliás, que nem chegou a ser publicada em seu tempo e ainda hoje é praticamente desconhecida, mercê do preconceito e de outros fatores culturais que marcavam a sociedade maranhense no século XIX quando, então, ser mulher era também ser submissa, subalterna ao regime patriarcal – que conferia aos seus representantes o poder de estudar, até mesmo fora do Estado e do País. Ler, analisar, divulgar esta escritora, pioneira da nossa literatura de expressão feminina é, pois, um privilégio, um dever de todo o maranhense.

Maria Firmina foi aquela que não se deixou intimidar, que recusou-se à condição feminina de mera subserviência, que não desistiu de suas aspirações mas, superando suas limitações espaciotemporais, foi além, usando a sua escritura como arma de combate, demonstrando que a mulher é, sim, capaz de atuar produtivamente numa sociedade, sem ter que viver na subserviência, subestimada em sua inteligência e competência. Assim, no exercício da literatura e do magistério a que se entregou sem reservas, Firmina lutou com os recursos de que dispôs, no encalce dos seus ideais: liberdade de expressão e direito de ser – caminho que não lhe foi fácil percorrer, confrontando-se aos grandes escritores de outrora, formados no Sul do País ou mesmo na Europa.

Primeira literata maranhense, romancista, contista, poeta, charadista e compositora de música, Maria Firmina dos Reis nasceu em São Luís do Maranhão (Rua de São Pantaleão, próximo à Igreja homônima), em 11 de outubro de 1825. Afro-descendente e filha natural (bastarda) de Leonor Felipa dos Reis e João Pedro Esteves. Na sua educação e formação, contou com a ajuda do primo (pelo lado materno), o escritor/educador Sotero dos Reis, vindo a ser a primeira professora concursada no seu Estado – aos 22 anos foi aprovada em concurso público para a Cadeira de Instrução Primária, cargo que exerceu pelo resto da vida, no município de Guimarães. Dedicou sua vida a ler, escrever, ensinar. Ao aposentar-se, fundou, em sua casa, a primeira escola mista e gratuita do Estado.  Mulher de grande atividade intelectual, matriarca espiritual de seu povo. Adotou dez crianças (seus filhos do coração) e morreu pobre, cega e esquecida, em 11 de novembro de 1917, na cidade de Guimarães, longe do continente (Lobo, 1966). “Pobre, mulata e solteira”, enfrentou o preconceito social e racial próprios do seu meio e do seu momento histórico (temática tão bem abordada por Aluísio Azevedo no seu romance O Mulato). Mas, convicta do que pretendia alcançar, procurou expressar suas ideias e posições na tribuna literária, quebrando todas as barreiras, superando os seus impasses de mulher numa sociedade patriarcalista, inscrevendo-se na história da nossa literatura com os romances Úrsula (1859 – que a consagrou) e Gupeva (Semanário Maranhense – 1870) e o conto A Escrava (Revista Maranhense – 1887), o livro de poemas de cunho lírico/político Cantos à Beira-Mar (1871) – além dos enigmas, charadas e outros trabalhos de valor didático-pedagógico, também publicados em jornais locais.

Úrsula – Escrito quando a autora tinha um pouco mais de 30 anos (num momento em que a nossa prosa de ficção começa a dar os seus primeiros passos), mas publicado em livro somente em 1975 (pelo escritor Nascimento de Moraes Filho que o descobriu e coletou do Semanário Maranhense), inaugura o romance abolicionista brasileiro de expressão feminina. No livro, o negro escravo é presença marcante, na medida em que a voz narradora “denuncia a violência do sistema escravista e questiona a sua legitimidade, num contexto em que os escravos eram arrancados da terra natal, transportados como animais em navios negreiros, reprimidos, sadicamente, em caso de justa revolta e separados de suas famílias, sem qualquer respeito pelos seus sentimentos. Trabalhavam sem descanso, alimentação, roupas ou moradia adequada” (Viegas, 2007). Trata-se de uma obra romântica, com timbres de denúncia social, tendo o amor (impossível) entre Úrsula e Tancredo como pano de fundo na temática abolicionista.

A narrativa inicia-se com o capítulo “Duas almas generosas”, que põe em cena o socorro prestado por Túlio (jovem escravo) a Tancredo (jovem branco, burguês), vítima de um acidente, durante um passeio a cavalo. O título supra referido já sugere a bondade, a generosidade, a solidariedade, falando alto, superando preconceitos, aproximando dois seres humanos socialmente distantes. A escravidão massacrante e odiosa não endurecera o coração do jovem negro, que cuida do branco e abastado Tancredo, vendo-o, tão somente, como alguém necessitado de ajuda. A autora quer patentear em sua obra que, não obstante as injustiças sofridas, os negros têm bom coração e capacidade de amar. Por seu lado, Túlio, o jovem branco, livre e rico, experimentando, gratificado, a bondade do seu salvador, compra-lhe a carta de alforria.

E o enredo prossegue, linearmente, em seu desenrolar. O escravo acolhe o cavaleiro ferido na casa da sua senhora (Úrsula, coincidentemente, prima de Tancredo). A situação promove o encontro dos dois jovens aparentados, acendendo-lhes a paixão que os transporta a breves momentos de felicidade, para culminar com a tragédia. Úrsula cuida da mãe doente, que fora traída pelo próprio irmão (tio da jovem), o Comendador – que, por ser contrário ao casamento da irmã, vem a assassinar o cunhado (pai de Úrsula) e a apossar-se dos bens da família. É o típico vilão da história, figura sádica do senhor cruel, que explora a mão de obra escrava até miná-la nas suas forças. O desfecho de tudo se dá com o assassinato de Tancredo (pelo tio da noiva), à porta da Igreja, na noite do seu casamento, seguindo-se o recolhimento de Úrsula, ao convento, o tardio remorso do assassino, a consequente libertação dos seus escravos e a loucura, culminando com a morte do vilão arrependido.

Em Gupeva – republicado também por Nascimento de Moraes Filho em Maria Firmina, fragmentos de uma vida/São Luís, 1975 – é a temática do indianismo que se sobreleva, num enredo em que o protagonista Gupeva, chefe indígena, apaixona-se por uma jovem chegada da Europa, ignorando o fato de ambos serem irmãos, filhos de um mesmo nobre francês.

Em A Escrava, publicado no auge da campanha abolicionista, a autora reitera seu discurso, sua postura antiescravista e republicana (já transparente em Ùrsula), ficcionando, no enredo, uma conversa/discussão, em ambiente burguês, em que um dos convivas critica a escravidão, por ser esta anti-humanista e degradante para a sociedade. Trata-se de uma senhora que, assumindo-se pró-abolicionista, narra em flash back, o episódio em que tentou salvar a Mãe Joana, uma escrava fugida, e seu filho Gabriel. Não resistindo aos sofrimentos, a escrava faleceu. Quando o senhor/açoitador veio resgatá-la, a dita senhora, não admitindo que o filho de Joana voltasse a sofrer como escravo, comprou-lhe a carta de alforria.

Em 1889, compôs o Hino da libertação dos escravos (letra e música). Em 1895, aposentou-se do ensino público oficial (mas continuando a lecionar em sua casa), passando a colaborar no Jornal Diário do Maranhão; em 1897, no Pacotilha; em 1903, n’O Federalista.

Pode-se inferir que, numa visão intimista é que Maria Firmina deu à luz suas obras de teor abolicionista, posto que, vivia e sentia, por experiência própria, o preconceito que, corajosamente, denuncia, sublimando-o, ao escrever um dos nossos primeiros romances abolicionistas, para lembrar, finalizando, Assis Duarte que diz:

“O livro permaneceu fora de circulação por mais de um século e seu resgate vem contribuir para a reescrita de nossa história literária. Até porque inaugura uma perspectiva diferenciada quanto ao trato do problema da escravidão, que não encontra na obra dos demais escritores do período romântico. A autora – mulher, mestiça, bastarda e criada sem a presença dos pais – assume o ponto de vista do outro, tanto no que diz respeito à representação dos escravizados, quanto no inédito enfoque das relações de dominação patriarcal sob a perspectiva da mulher. Ao publicar Úrsula, Maria Firmina dos Reis desconstrói igualmente uma história literária etnocêntrica e masculina até mesmo em suas ramificações afrodescendentes. Úrsula não é apenas o primeiro romance abolicionista da literatura brasileira, fato que, inclusive, nem todos os historiadores admitem. É também o primeiro romance da literatura afrobrasileira, entendida esta como produção de autoria afrodescendente, que tematiza o assunto negro a partir de uma perspectiva interna e comprometida politicamente em recuperar e narrar a condição do ser negro em nosso país. Acresça-se a isto o gesto (civilizatório) representado pela inscrição em língua portuguesa dos elementos da memória ancestral e das tradições africanas. Texto fundador, Úrsula polemiza com a tese segundo a qual nos falta um “romance negro”, pois apesar de centrado nas vicissitudes da heroína branca, pela primeira vez em nossa literatura, tem-se uma narrativa da escravidão conduzida por um ponto de vista interno e por uma perspectiva afrodescendente”. (In: REIS, 2004, posfácio)

REFERÊNCIAS

CAMPOS SANTOS, Luisa Caroline (bolsista/orientanda) e CORRÊA, Dinacy Mendonça (orientadora). Projeto Teares da Literatura Maranhense – a tessitura feminina. Pibic-Uema/Fapema, 2006/07 – relatório final.

CORRÊA, Dinacy Mendonça (orientadora) e VIEGAS, Priscila da Conceição (bolsista orientanda). Projeto Teares da Literatura Maranhense: romancistas contemporâneas. Pibic-Uema, 2006/07 – relatório final.

COSTA LEITE, Deuza Maria. A Literatura Maranhense na Expressão Feminina – pequena antologia crítica. Monografia de Conclusão do Curso de Licenciatura em Letras (sob a orientação da Prof. Dinacy Mendonça Corrêa). São Luís-Ma: Uema, 1999.

DUARTE, Eduardo de Assis. In: Reis, Maria Firmina dos. Úrsula, 4ª. ed. – PUC/Florianópolis-MG:Editora Mulheres (atualização do texto e posfácio).

LOBO, Luiza.  A Literatura de Autoria Feminina na América Latina. Rio de Janeiro:UFRJ, 1996.

REIS, Maria Firmina dos. Úrsula. 4ª. ed. PUC/Florianópolis-MG: Editora Mulheres.

SUPLEMENTO CULTURAL E LTERÁRIO JP-GUESA ERRANTE. Ano III, ed. 100 – 28.11.2008.